Em 2002 fui em um aniversário de criança, sobrinho de uma amiga minha e eu não sabia o que dar, então, adquiri a melhor coisa que sete reais podiam comprar: Um hamster!
Achei a minha idéia brilhante e barata e não entendi porque a mãe me olhou chocada quando eu entreguei o animal para o filho dela que acabara de completar três anos. Assim que o infante pegou o hamster, o segurou e arrastou no chão fazendo "vummmm" como se fosse um carrinho. Ali, eu soube no fundo do meu coração que eu tinha feito uma grande cagada. Eu havia entregue aquele pequeno roedor nas minúsculas e inocentes mãos da morte certa.
Quando baixei a minha cabeça no meu mais profundo arrependimento, percebi que não adiantaria recolher o animal e correr porque eu não iria para muito longe, estava de salto alto. Notei também a similaridade intelectual e linguística entre os dois seres (aniversariante/carrasco e presente/sacrifício) na incapacidade de compreender um “me desculpe”.
Para não ir para o inferno hamsteriano, quis compensar o karma e, no outro dia, comprei um casal de hamsters e prometi a eles que iria dar a vida mais digna que uma pequena jaula com um círculo para correr, ração e feno eram capazes de proporcionar.
Lavada em culpa, aprendi a amar hamsters. Peludos, industriais, encarcerados para não fazer cocô em todos os lugares. Hamsters são os melhores, hamsters são espertos, hamsters são pequeninos e cheios de perdão, hamsters não vão me mandar pro inferno.
Logo aprendi que os três hobbies favoritos de um hamster são: trepar, fugir e morrer sem a menor razão aparente - sem hierarquia quanto a preferência. Vejam bem, um hamster macho de dois anos é praticamente um Hugh Heffner. E eles curtem mesmo esse lance de fugir, e como são pequenos, eles se escondem em lugares nos quais nunca iremos achar até que eles saiam de lá cambaleando de fome ou sede ou deixem um rastro de excremento.
Sucintamente: amar hamsters é uma aventura adentro as rachaduras de um coração partido.
Aqui vai a história de como com as suas patinhas eles conseguiram cavar uma fenda profunda – Lenny, Kravitz e Eu.
Eu era agora a orgulhosa dona de um casal: Lenny & Kravitz (hey, estamos em 2002 e o cara era legal na época). Eles eram dois decentes hamsters exercendo a sua hamsteriedade da forma completamente hamsteriante. Fugiam frequentemente, corriam no circulo quando todos estavam dormindo, e as fezes, oh, deus, tantas vindas de seres tão pequeninos.
Aos dois meses de vida, atingiram sua maturidade sexual. Lenny, depois de uma terrível maratona prolífica, ficou grávida. Ela teve seus muitos bebês, e OS DEVOROU ASSIM QUE ELES SAIRAM DE SUA VAGINA. Quentinhos e diretos da fonte. Na verdade, acreditei que ela havia tido um momento de consciência e maternidade, porque ela não comeu um de seus bebês. Ledo engano, ela apenas se sentiu satisfeita, pois, no dia seguinte, ela o fez.
Acho até que ela estava numa depressão pós-parto fodida porque depois que acreditamos que ela havia parado com hamsterficina, ELA DEVOROU O KRAVITZ. Mas, Kravitz era um guerreiro, um macho man e não deixou ser dominado assim tão facilmente, ele arrancou um dos olhos dela antes de ser completamente extinto. Bem que também poderia ter sido uma auto-mutilação, para ficar ainda mais aterrorizante, seguindo o exemplo de Calígula.
Enquanto eu e meu irmão encarávamos a gaiola estupefatos, tentando compreender quando aquilo havia se tornado numa miniatura da Cúpula do Trovão, notamos que Lenny desaparecera. Por um segundo achávamos que ela tivesse devorado a si mesma, e rimos da nossa falta de noção. No segundo seguinte, quando percebemos que a resposta mais lógica era a de que ela havia fugido, paramos de rir e tememos pela nossa própria segurança. Lenny estava sedenta por sangue.
O horror que invadiu a minha alma devia ser equivalente ao do hamster que dei de presente para o garotinho. Estávamos quites.
Nunca mais vimos Lenny novamente.
Vez por outra, a noite, me encontro torcendo para que ela tenha encontrado um gato e não um esgoto.

20 Tracks:
tive uma experiência bem parecida com a sua, mas os Hamsters eram do meu irmão e ele tinha 2 anos... então quando começou a carnificina...mamãe resolveu doá-los separadamente para outras pessoas, pois meu irmão tinha conhecido através daqueles pequenos roedores que a vida não era assim um mar de rosas.
B-Ju
meuuu deuuuuuuuuuuuuuuuuuusss
aheiuaheiuhaeiaehuiaheiuheae
eu já criei um hamster, tou passada com isso. ela era normal, deve ser pq eu num dei oportunidade de ela engravidar e encher a gaiola de miniaturas com um rabo imenso e que me dariam medo de madrugada. mas, mesmo assim, ela também saia correndo da casinha super decorada dela e se escondia nos lugares mais inusitados do meu quarto, até que a minha cachorra, com o espírito caçador, devorou-a.
ah, não posso crer: então é uma mulher que vai desbancar José de Alencar?
ao menos tem os cabelos "mais negros que as asas da graúna"?
sem nenhum exagero, dava pra publicar no Estadão, no lugar da crônica humorística do Verissimo.
=D
marcos
Que narração aterrorizante. Se antes eu nem passava perto dessas criaturazinhas, imagina agora? Ha!
Beijo!
Olha, se esse texto fosse de outra pessoa eu ia fazer a chata defensora dos animais e cuspir aqui um zilhão de xingamentos contra você. Mas como é você, relevo. Afinal, na fila da noção você passou longe e eu não posso te culpar por isso \o/
Tenho pena do gato que ela encontrou, tenho mesmo...hehehe!
beijos
Você já pensou se a hamster assassina, nesses 7 anos passados, esteja escondida proliferando uma nova raça assassina de hamsters assassinos que assassinam por aí e estão aguardando o grande momento para morder sua canela?
Por isso gosto de ratos e não de hamsters. Os ratos fazem aquilo que você espera, são maleficamente espertos e livres. Já os hamsters são uns trapaceiros, igual os gatos.
Grande abraço
thriller, hein? chamou o vincent d'onofrio?
Sun
que história fantástica. Fiquei até com vontade de comprar um casal para ver com meus próprios olhos o devir da natureza. Lindo!
"Lenny, a maldita". Dá um belo roteiro suspense/trash/terror.
Isso me fez lembrar de uma fase da pré-adolescência em que eu imaginava mini-roteiros cinematográficos.
Que horror! HAHAHAHAHHAHAHA
Nunca fui fã de hamster, agora então ...
Claro que vc não se inspirou nesta linda página do cancioneiro cearense, mas tem tudo a ver:
AMOR CANIBAL
Falcão
Composição: (Robério Soares)
(...)
E quando acabar toda fauna e flora
A gente se bebe
A gente se come
Eu como seu bucho, tu come minhas tripas
Eu como seus ói, tu come minha venta
Nós só não vai morrer de fome
o.O
marcos
Meu Deus, que medo! O.o
Meu irmão uma vez comprou um porquinho-da-índia (ou outro roedor que não hamster), mas ele era inofensivo e só comia ração e mato.
uihuiahuihauihuiahuihauhauih
auahuhauihuiahuiahuihauhuah
não sei nem o que dizer, que bizarrro, cômicamente medonho.
otimo!
beijos frôr!
Porra, são bonitinhos.
Mas esse negócio de ver bicho matando bicho não dá pra mim. Fico deprimido com aquele Animal Planet.
abraço
Hahaahaha,
Isso parece um roteiro para filme do Cronemberg.
Hahah! (Medo de ser devorado por uma ramster)
Fantástico relato! Quase um filme de terror. Lenny, la peligrosa hamster.
Bom, agora acredito que hamters são animais não-seguros para ter dentro de casa. Hamters são canibais.
E talvez Lenny tenha ido pra toquinha do Hamtaro, comer seusamiguinhos.
Legal, minha cadela chama-se Pink Floyd. E minha mãe fala que ela é Pink, e eu sou Floyd. Denominação ordinária, né! rsrsr
Beeijos.
TOMARA QUE ELA TENHA ACHADO UM GATO!
*medo*
Tive dois Hamster, Mimosa e Robert, que infernizaram nossas vidas com suas hamsteriedades.
A mimosa arrancou a ponta do meu dedo sem dó nem piedade.
Ela morreu de velha mas o Robert desapareceu.
Com certeza, esta noite, terei pesadelos com boeiros e afins.
Parabéns pelo texto!
Beijunda
Ah, então aquele hamster gigante que destruiu Tóquio se chamava Lenny!
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