terça-feira, 24 de junho de 2008

Cara limpa, tô fora!

Apesar do fato de dirigir um Gol prata, 1.0, 2000, sem direção hidráulica e o farol traseiro quebrado; não uso drogas ilegais.

Nem nunca usei.

Isso tem haver, talvez, com o fato de ser proveniente de uma família de maioria absoluta católico-militar e possuir como liberdade de escolha entre perder a minha alma para o inferno ou de ter que fazer xixi em um copo de plástico, caso chegasse em casa com olhos vermelhos por algo além de choro ou conjuntivite.

Mas, na minha adolescência e início da fase adulta, quando eu bebia feito uma desempregada (até pelo fato de ser uma) a pluralidade dos meus amigos curtiam pó, doce, canabis, cana ou afins. Até, mesmo na minha família, é o.k. beber em festas como se não houvesse amanhã e arrumar um Lexotan ou outras drogas legais é mais fácil que pedir um real.

Em meus primeiro, segundo e todos os outros grupos de contato social, é normal conviver com pessoas em estado de consciência alterada. Porém, como sou gente fina e cabeça aberta, mais tarde aceitei também gente que “apenas diz não”. Contudo, devo admitir, tenho um certo bloqueio com relação a alguns destes últimos.

Veja bem, não é um caso de precisão de alterar a consciência, eu própria sou capaz de ir a um bar e tomar apenas suco de goiaba com leite - até porque desenvolvi uma gastrite braba - e me divertir pra caramba. Nem nada contra aqueles que não bebem porque não gostam do sabor da água que passarinho não bebe. É ter um pé atrás com aqueles que têm medo dela. Vão por mim, aqueles que têm medo de alterar a consciência tem o rabo preso com algo.

Na faculdade conheci uma tranqueira dessas. Para proteger a MINHA integridade e não da pessoa, pois ela não tem nenhuma, chamaremos essa garota de a Honorável Feladaputa, na verdade queria chamá-la de Aquela Fudida, mas acho que o problema dela é exatamente ser mal comida.

Entrei em um grupo de pesquisas sobre o Sagrado e o Profano e suas readequações na atualidade. Vi essa menina tímida, magrinha, anêmica, usando um par de óculos brega e reclusa em um cantinho, era a Honorável Feladaputa. Praticamente um Louva-Deus astigmática, a Honorável Feladaputa. A princípio, parecia não fazer mal a seu ninguém, parecia não saber nada da vida. Tinha 22 anos e nunca havia dado um beijinho sequer na boca.

Resolvi fazer dela meu projeto social. Queria mostrar a beleza da vida além, apresentá-la a rapazes reais, e o mais importante de tudo, os óculos horrendos tinham que partir. Dentro das fronteiras campos acadêmicos, formamos um trio e ainda no processo de bacheralamento publicamos trabalhos, escrevemos capítulo para um livro de Antropologia cujo outros autores eram doutores. Fora das fronteiras, tentei fazer um ritual de passagem e iniciá-la na antropofagia de seres masculinos formosos. Levei-a ao meu habitat natural, um certo bar nessa cidade e ela passou a noite bebendo água. Achei aquilo curioso e resolvi perguntar a razão. Dirigindo? Religião? Não gosta do sabor? Nada disso, ela respondeu que não bebia por que tinha medo de não controlar a sua consciência, e na lista de medos esdrúxulo dela estava delirar de febre. Mas, hey, eu também tenho uma lista de medo desfundamentados e não julguei a garota.

Fomos amigas por um tempo, não mais fora do meio acadêmico pois ela não tinha se adequado aos lugares fora do raio casa-faculdade, mas a medida que minhas notas foram ficando mais altas do que as dela, também cresceu o nosso distanciamento na faculdade. Chegou a um ponto que eu entrava na xérox, ela me via lá e saia. Perguntei o motivo uma, duas vezes, e ela nunca abriu o jogo. Talvez, com álcool ou um delírio febril, mas normal, nunca. Daí, os amigos dela também passaram a me ver com olhos estranhos, fiquei incomodada com aquilo, mas criei para mim a ilusão e segurança que bastaria eu bater o pé no chão para que eles saíssem correndo, caso algum dia me sentisse ameaçada.

Nos bacharelamos e nunca mais nos vimos. Eu e a outra do trio inscrevemos nossos trabalhos sobre sagrado e profano em congressos nacionais, sempre citando o nome dela quando mencionado o nosso capitulo. Somos porraloucas éticas.

Em um domingo qualquer, a terça parte do trio me liga e pergunta se eu já havia lido o jornal, disse que sim, e ela menciona um outro jornal que não assinamos aqui em casa, acesso o site. A terça parte do trio não me avisou que ao acessar o site, eu encontraria uma entrevista com a Honorável Feladaputa, sobre o nosso tema, o nosso capítulo, citando o trecho que eu escrevi, se utilizando das minhas palavras, e sem nem por um momento citar os nossos nomes.

Desliguei meu notebook, dirigi-me ao meu armário com todo o acesso de fúria repentina que me é característica e digna do meu apelido “kaboom”. Comecei a atirar as roupas no chão. Minha mãe me perguntou o que eu estava fazendo, expliquei para ela o que havia acontecido e disse que estava procurando algo digno de atear fogo na Babilônia. Convenceram-me que a coisa mais sensata a ser feita era escrever para o jornal, dar os dados e pedir que correções fossem feitas. O fiz e nada aconteceu. Remoí e internalizei minhas conspirações contra a menina. Tanto que já tive sonhos recorrentes de que quebrava a cara dela de variadas formas. O sonho que eu mais gostei foi o que ela era uma mímica em um parque e eu sentava o pau nela e ela nem podia gritar porque não podia emitir um som.

Hoje, eu meio que deixei pra lá. Fui meio que forçada pela minha mãe e pela terça parte, disseram que eu sou extramente rancorosa e explosiva e que devia domesticar meu caráter. É, talvez elas estejam certas, mas de agora em diante eu tenho os dois pés atrás com pessoas que tem medo de alterar o estado de consciência.

Ah, ainda não sei o que devo vestir para atear fogo na Babilônia.

14 Tracks:

Rodrigo Carreiro disse...

Ufa... Vc é realmente muito furiosa. Mas se fosse eu insistiria mandando email pro jornal.
Roubo intelectual é a pior merda que existe.

Silvinha disse...

é uma gradisissima fdp, a "Honorável Feladaputa". Como tem calhorda desonesto nesse meio!!!

entendo bem essa necessidade de kaboom... teu olho tb começa a tremer de odio? X)

Beijos

rancorizando disse...

Sabe qdo isso acontece? qdo superestimamos as pessoas. Vc julgou que aquela menina bobona e cafona jamais poderia lhe fazer mal.Ela era um anjo! Nem tem pq. É nesse momento que a coisa rola entende? Comigo tb foi assim...
Outra cousa, concordo com vc, quem tem medo de se mostrar, é pq sabe-se um merda.
E, em caso de dúvida, vai no pretinho básico que não falha!
beijones

F. disse...

Ah, fala sério. Eu sou boazinha por fora e uma bomba nuclear por dentro. Tinha quebrado a cara da criatura (e isso não é uma metáfora). Ia dar assunto pra ela falar de mim por bem ou por mal.

A palhaça ia citar meu nome todas anoites, quando fosse rezar pedindo proteção.

Beijom!

Paulo Bono disse...

"O sonho que eu mais gostei foi o que ela era uma mímica em um parque e eu sentava o pau nela e ela nem podia gritar porque não podia emitir um som."
Sunflower.

pronto. citei uma coisa do caralho e muito engraçada e dei o crédito.

tenho um amigo também que diz que não confia em homem que não bebe ou não gosta de futebol.

abração

Lela disse...

alterar estado de consciência é comigo mesma, tão comigo mesma que consigo fazer isso sem consumir nada ilícito!

Chantinon disse...

tenho medo de alterar o estado de consciência, mas eu altero assim mesmo! :)
Só com drogas lícitas (desde que não venham da farmácia e sem do boteco)
Kaboom... Hahhaha!

Helloise disse...

Se quiser companhia, você sabe que eu adoro dar porrada em certas feladaputas, só não o faço com mais frequência com medo de estragar a composição do dia.
Você pode ir de red stileto e a roupa é o de menos, pois o sapato é que é importante pra você pisar na cara dessa bicha.

hahahahaha.

Beijostôpobrenessefdsmassemanaquevemricaagain!

Chantinon disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Chantinon disse...

Para a próxima songs list:

http://www.youtube.com/watch?v=2T4BsnXmJaI&

Rackel disse...

Caracoliiiiiiiiis.... FELADAPUTA mór essa daí, heim!

Hey, acho q sou kaboom igual a vc... certamente teria ido a casa da moça com uma cópia do jornal pra jogar nela e atear fogo nos 2!

Mas o q vestir, sinceramente eu não sei...

=)

Edna Federico disse...

Janaaaaaaaaaaaaaaa, tô aqui, marvada!!!!!
Hehehehehehhe.
Beijo

4rthur disse...

Aimplesmente lambuza o corpo de calda de morango e não vista nada.

não sei se dá protege contra o fogo, mas que dá asas à imaginação alheia, isso dá.


... e quanto ao "nunca usei"... no comments.

;)

Mwho disse...

E o mundo está cheio de "feladaputas" como essa... Muitas freqüentam igrejas, colunas sociais, mas, um dia, acabam nas páginas policiais... Nem que seja com as algemas da Polícia Federal...